Distrito da Confusão
Crônicas de Odylo Costa, filho
Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho. Nem todas datam de tempos de censura, mas todas ganham em ser lidas também nas entrelinhas. É o que recomendo ao leitor.
Sobre o Distrito da Confusão
(Diário de Notícias, 10 de setembro de 1943)
Tenho por Minas Gerais um pouco da mesma ternura, meio fanática, que enche minha biblioteca de livros sobre a Índia. Ambas – uma no Brasil e outra no mundo – me parecem invadidas por um poder de sedução milenar, misterioso, por vezes alegre, por vezes terrível, que não vem só das montanhas e da paz inviolável das montanhas, mas também do seu povo, da paz interior que o inunda e não é uma estagnação, mas uma forma de vida intensa, a mais intensa que é possível existir.
Nunca estive na índia; já estive em Minas Gerais. Creio que depois do vale da minha infância e de certas paisagens do Rio, amor por uma terra eu tenho é por aqueles morros, em cujos flancos os homens conversam, contam histórias, trabalham, passeiam, fazem caridade, descem de fazendas longínquas para assistir missa – tudo isso com uma pureza, uma convicção, uma inocência que a gente não esquece mais.
Minas Gerais não é só um dos dois ou três lugares do Brasil onde acontecem coisas; é também um lugar onde tudo acontece. Até o vento é lírico, desocupado: o vento (como diz o meu poeta Carlos Drummond de Andrade) brinca com o bigode do construtor. Terra onde há profissões que resistem ao tempo; cuja maneira democrática e livre de pensar e de agir já se cristalizou (espírito das velhas Câmaras Municipais, da luta entre as cidades, de juízes, advogados, médicos, escrivães misturados com o povo e preocupados com o seu sofrimento); cujas cidadezinhas me parecem ser o modelo do que há de melhor no Brasil, daquilo que não deveríamos deixar perecer, o bom entendimento entre os homens, mesmo pobres.
Em Minas Gerais tudo acontece, até serem homens inteligentes seus grandes governantes, um João Pinheiro, um Raul Soares, o Sr. Artur Bernardes, um Antônio Carlos. Deve ter sido no governo deste último, cuja malícia coexiste com o entusiasmo, que o Distrito da Confusão tomou seu nome. Conto a história como me contaram, mas não me responsabilizo por sua veracidade.
Ora se deu que num distrito de Minas Gerais, um dia, um fazendeiro teve de assinar um papel. Mas não sabia o dia, mês e ano em que estavam. Foi ao dono do bar: no bar, entre o dono e os fregueses, uns sustentavam que era quarta-feira, 8 de agosto, outros que era quinta-feira, 9 de agosto. Uma folhinha que apareceu não dirimiu a dúvida, porque a mulher do proprietário lembrou que poderia ter havido esquecimento em arrancar as folhas. Um terceiro grupo manifestou-se a favor da terça-feira, 7 de agosto. Os que tinham certeza sentiam a certeza abalada. Às cinco horas da tarde foi preciso expedir um portador, a cavalo, para a cidade vizinha, a fim de, galopando pela noite adentro, esclarecer aquela gente, perdida dos contatos humanos.
O distrito foi, então, batizado com o nome de “Distrito da Confusão”, que, segundo me dizem, ainda possui.
Essa pequena história não é um delicioso símbolo do tempo em que vivemos? Pleno “Distrito da Confusão” agravada pelo desaparecimento das folhinhas... Não só não sabemos mais a data certa, acontece ainda pior: não sabemos a relação entre a data e o dia da semana. Perdemos a orientação no tempo e no espaço do pensamento humano.
Um dos sintomas desse estado de coisas é a facilidade com que os acontecimentos se apresentam sob imprevisíveis aspectos. Abro, por exemplo, o meu catecismo, encontro entre os pecados contra o Espírito Santo, entre aqueles que são “cometidos por pura malícia e por isso ofendem diretamente a bondade divina, atributo do Espírito Santo”, este monstruoso pecado: “Contradizer a verdade conhecida como tal.” Pois diariamente vejo gente que conheço afirmar que sexta-feira é quinta, que o dia 10 de setembro de 1943 é anterior a – como direi? – a 14 de julho de 1789...
Creio que todos nós auxiliaríamos muito a desfazer a confusão reinante, se, ao nos sentarmos para escrever, fizéssemos o seguinte voto: “Não, hoje não pecarei contra o Espírito Santo. Não irei contradizer a verdade conhecida como tal. Serei sincero. Não direi que sexta-feira é quinta-feira, nem quarta-feira, nem sábado. Direi que é hoje, sexta-feira, 10 de setembro de 1943. Assim Deus me guie e acompanhe, para que, conscientemente, nunca falte à verdade.”


Bom demais. Tantas saudades…
👏👏👏